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Viagem

O lado secreto do norte da Tailândia: vilarejos de montanha, plantações de chá e neblina sobre Chiang Mai

Última revisão: 2026-07-18

Escrito por Ricardo Dos Santos

O lado secreto do norte da Tailândia: vilarejos de montanha, plantações de chá e neblina sobre Chiang Mai
Photo by Pitipat Usanakornkul / Pexels

Mae Kampong, Doi Mae Salong, as estradas secundárias de Pai: o norte da Tailândia recompensa a viagem lenta, entre comunidades de montanha, chá de Yunnan e uma temporada de queimadas a considerar.

Uma geografia que se lê em altitude

O norte da Tailândia não se entende como o resto do país: aqui, a altitude organiza tudo — o clima, as culturas agrícolas, os povos. Passados os arredores de Chiang Mai, a estrada sobe rumo a vilarejos karen, akha, lahu e lisu instalados há gerações em cumeadas a 1000, 1200, às vezes 1800 metros, onde o arroz dá lugar ao chá, ao café e, mais acima, a hortaliças introduzidas pelos programas reais de substituição do ópio nos anos 1970. Entender essa história agrícola muda completamente a forma de visitar a região: não são cenários folclóricos, mas economias de montanha reais, ainda em transformação.

Mae Kampong: o vilarejo que escolheu o ecoturismo em vez do êxodo

A menos de uma hora de carro de Chiang Mai, mas separado por curvas suficientes para desencorajar excursões apressadas, Mae Kampong é um vilarejo de cultivo de chá encaixado num vale úmido, com casas de madeira sobre palafitas à beira de um riacho alimentado por uma pequena central hidrelétrica comunitária. Diante do êxodo rural que esvaziava o vale nos anos 1990, os moradores organizaram uma rede de hospedagem em casas de família em vez de construir hotéis — uma escolha que mantém a população no local e distribui diretamente a renda do turismo entre as famílias. Dorme-se numa casa de madeira, come-se o que a família preparou, e caminha-se até a pequena cachoeira de Mae Kampong no fim da tarde, bem quando a neblina começa a descer entre os pés de chá.

Doi Mae Salong: a Tailândia que ainda fala chinês

Encarapitado a mais de 1200 metros perto da fronteira com Mianmar, Doi Mae Salong foi fundado por remanescentes do Kuomintang após a retirada da China em 1949, e sua identidade continua profundamente ligada a Yunnan: templos de telhados curvos, uma feira matinal de ervas medicinais e, sobretudo, encostas inteiras cobertas por plantações de chá oolong, introduzidas justamente por esses refugiados para substituir o cultivo de papoula. Caminhar entre as fileiras de chá ao amanhecer, com a neblina ainda presa às cumeadas, continua sendo uma das experiências menos documentadas do norte tailandês — a maioria dos viajantes para em Chiang Mai e Chiang Rai sem nunca desviar até esse planalto.

Pai pelas estradas secundárias, não só pela Rota 1095

A estrada principal para Pai, a famosa Rota 1095 com suas 762 curvas, concentra a maior parte do tráfego turístico e, com ele, boa parte do folclore questionável que acabou definindo a cidade para muitos. As estradas secundárias que contornam o vale a leste, rumo a Ban Santichon (vilarejo yunanês) ou às cachoeiras de Mo Paeng, cruzam arrozais em terraço e vilarejos lisu quase sem tráfego, oferecendo uma versão mais tranquila da mesma região — uma alternativa simples para quem já visitou o centro de Pai e busca outra coisa.

A temporada de queimadas: o fator que poucos roteiros antecipam

De fins de fevereiro a abril, boa parte do norte da Tailândia — junto com Mianmar e Laos vizinhos — passa por uma temporada de queimadas agrícolas que degrada fortemente a qualidade do ar, chegando a figurar entre as piores do planeta nesse período. Esse fator, raramente mencionado nos roteiros padrão, merece ser checado antes de reservar um trekking ou uma subida ao Doi Inthanon nessa época: a melhor janela para caminhadas e ar limpo continua sendo de novembro a janeiro, quando as noites de montanha esfriam e o céu costuma ficar limpo.

Viajar por essas montanhas sem reduzi-las a cenário

Visitar um vilarejo de minoria étnica não é visitar um museu vivo: significa pedir permissão antes de fotografar moradores, preferir guias e hospedagens administradas pela própria comunidade em vez de excursões organizadas a partir de Chiang Mai que repassam apenas uma fração da renda, e aceitar que um vilarejo agrícola tem um ritmo de vida que não gira em torno do visitante. Essa lentidão assumida — colher chá, secar as folhas, preparar uma refeição compartilhada — é o que dá valor real a um desvio pelo norte da Tailândia.